sou vizinha da última morada de Camões e não tive coragem de visitá-lo. o senhor que há tantos anos me inspirou às primeiras estrofes e caminhos, não recebeu minha visita ainda e meu sentimento está enterrado debaixo de sete palmos de terra, me pergunto se o silenciar da poesia é um sintoma ou uma consequência efêmera de meu estado de espírito.
passei bem perto de Pessoa também, estava atrasada, não poderia perder o último autocarro para Alfama, o poeta estava sentado em um banco e eu nem olhei para trás, pense que dificuldade ignorá-lo. mas nesses dias tenho me sentido tão boba, tão sem alma e entregue ao conjunto da obra do homem. as guerras pessoais e o mundo me enfraqueceram a alma e a palavra meio que voou de mim. meu coração poeta está enfermo, desde sempre, mas agora, parece mortalmente ferido. passei ao lado e não olhei. quem sabe o dia que me sentir mais forte volte lá e converse com ele.
os amigos me escrevem do estranho país de onde vim e para onde de certo voltarei um dia, e de lá não me contam nada novo, as velhas lorotas usuais, cotidianas, medianas, junguianas, freudianas, psicanalíticas, "geo" e "neo" políticas... e Brasília ainda ferve. o sol dos trópicos continuam a dança do "não fui eu, a culpa não é minha" e outro refrão que diz que "tudo se resolve o ano que vem..." em que ano estamos mesmo? aqui as opiniões se divergem entre a fome e a comida ambas editadas, replicadas e repetidas na hora do jantar, e isso causa uma discussão filosófica sobre quem começou o que, obviamente não importa, a intolerância é um prato indigesto para mim.
a refeição que me cabe é esse amor que sinto e por vezes amar é revolucionário, mesmo. eu riria se não entendesse a profundidade oceânica disso. antes eu lutava para não escrever cartas e editava meus poemas, por vezes quase secos por serem certeiros, agora quero registrar meus pensamentos, já sabendo que isso é totalmente impossível. as mãos não alcançam a velocidade das faíscas incendiarias do pensamento. Portugal arde e literalmente queima, como o cerrado brasileiro e como lá, aqui é minha terra também. entre os "pah" e "pows" derivam os devaneios e essa linha de pensamento peculiar que tenho.
mais uma vez o amor me faz mover terras e horizontes, sem me afastar muito de quem sou, do que sou. será que isso é possível, estar sem se perder, ou sem se hundir nas coisas dos outros? ás vezes perco os limites dos outros, os meus, os do mundo. às vezes só me perco...