segunda-feira, 16 de junho de 2025

nota 6

e hoje, será sobre os cigarros e as provas de amor. o (pequeno almoço) café da manhã na cama, todos os dias, até eu dizer que chega. os beijos de "bom dia" intermináveis e as canções no rádio, sempre ligado. aquelas músicas dos anos 80/90's, da MTV. e se penso a respeito, os meios cigarros a cada meia hora, para enganar-se(me) em sorrisos dizendo que um dia pára com isso. as palavras portuguesas vêm sem alegoria e sem aquele cantar com açúcar dos brasileiros, mas o embuste não é bem vindo por aqui, soa falta de honra. agora não espero nada mais que seja menos que isso. o imenso aqui é "mais grande" e não maior, por saberem que o infinito e universal são bem maiores que qualquer coisa. reto e sem curva é o argumento, se é, é e se não, não. sinto-me a "mais grande", a mais importante, a prioridade. mas às vezes perco o posto para uma gatinha chamada "nike" e sim, como a "deusa, da mitologia grega, da vitória encarnada", ela quem comanda todo o movimento da nossa casa.

sábado, 24 de maio de 2025

nota 5

não há porque se esconder e negar as obcessões. somos tão peculiares em linhas extremas do entregar-se e porque julgar? e porque não nos jogar, como anjos num mergulho cego, nus, sem santidade, sanidade, pudor ou asas? não há o outro, não há amado e amante, não há nada pois tudo é comiseração, desejo e histeria, um e outro num só, cinestésicos. onde está a linha, onde está o limite e a fronteira disso? alguém, se puder, me aponte onde é o começo e o fim, a entrada e a saída e me diga ainda se estou na gravidade zero, pois flutuo, deslizo e me refastelo. quero e não quero, e não sei dizer se é como Alan Poe descreveu, "um sonho dentro de um sonho", ao avesso, eu diria... shhh... silêncio, não se deixe enganar por esses pensamentos, deixa eu ser antes que me julgue, até porque estou surda ao mundo, estou imune a tudo que não seja isso, nada é tão meu quanto isso. seria um estágio transitório entre o prazer e a fúria? seria a pequena morte? ou apenas seria, sem palavras que aqui coubessem, como se a maioria já não soubesse, é. quem nunca viveu que julgue, quem nunca sentiu que almeje e quem já passou pelo mesmo: recorde. eu já havia esquecido, dormente como eu estava não me recordava. e porque não admitir o espaço para a loucura, depravação e emulação de qualquer coisa abaixo ou acima de qualquer julgamento alheio, o meu, o teu o nosso e o vosso, amém. devoramos-nos tal esfinges mancas, famintas de si e de tudo e recheadas de ouro e merda. apenas sentimos, sentimos e sentimos... e como disse Jobim e não ouso citar, e como alguém respondeu e eu me calarei apenas para preservar e respeitar os "mistérios gozosos" dos terços rezados e vertidos entre os dedos sacros das minhas avós.

sexta-feira, 23 de maio de 2025

nota 4

saber a hora de passar, saber a hora de parar, e seguir mesmo que seja inconstante é sempre seguir. por vezes a vida te leva, por hora a vida te impede e o fluxo nunca está em nossas mãos totalmente. um dos remos, o leme, o conhecimento do bailar das águas, talvez isso seja controlável, mas nem sempre você quer ou pode remar, quase nunca o leme depende só de tua força e as marés, correntezas, assim como o tempo fogem entre seus dedos. somos meros expectadores, muitas das vezes, a postos para atuar e nem sempre com uma atuação eficaz. eis que isso é a vida. eis que isso é sobre navegar. talvez seja esse navegar ao qual Pessoa se referia, quem sabe...

segunda-feira, 19 de maio de 2025

nota 3

tudo é novo aqui, os rostos, a atmosfera, cheiros, costumes, os sons. a língua portuguesa continua a mesma, embora o sotaque não seja tão igual quanto supoem-se. o ritmo das coisas também é peculiar. não me sinto desconfortável, o cotidiano é uma surpresa e os alvoreceres não são devotos à mesmice, como antes. não há silêncio, a mulher da peixaria, os empregados de mesa dos restaurantes da Alfama estão entregues às cusquices, tão surreal... parece interiorano, um caminho onde Jorge Amado e Saramago se encontrariam, com certeza. e é ilário às vezes. o Tejo em seus caprichos que a maré dita, o Atlântico também se manifesta, as melodias de ambos se completam na foz e o tamanho deles não importa, são amantes em uma cena onde um não se separam do outro. os dias passam lentos, ao sabor dos ventos e da chuva e chove muito. o terceiro elemento salga e invade a docilidade aquosa das manhãs lisboetas. a cidade ri e chora ao mesmo tempo.

terça-feira, 29 de abril de 2025

nota 2

  hoje acordei me perguntando quantas faces minhas já encarei nos espelhos e quantas iguais a mim vivem nesse mundo de julgamentos e inquisições? "ah, aquela bruxa, aquela doida, aquela que não aprende nunca a lição e a que não se conforma com o que lhe impõem", -  isso porque não veem a que chora, luta e sofre em silêncio, a que engole o medo, e segue adiante sem reclamar. 

  será que estou errada em pensar diferente das pessoas do lugar onde nasci? será que estou errada por querer mais do que a vida me ofereceu até aqui?

  fui sempre vista como "a forte", aquela que serve para lhe emprestar dinheiro, para lhe dar colo, lhe dar amor e tudo de mais precioso que tenho, sem negar-lhe nada, absolutamente nada, mas também como aquela que não pode demonstrar fragilidade para não ser taxada de vulnerável, nem tampouco fraca.

  "quem cuida de quem cuida? você mesma" - , digo pra mim todas as manhãs para minha imagem refletida  no espelho. até esse momento eu jamais havia me sentido tão amparada, é um sentimento novo pra mim. e mesmo assim tão amparada não me permito desfrutar, é um sentimento de não merecimento, de estranhamento até. ainda não me sinto confortável sendo cuidada, não sei explicar.

  talvez me falte humildade, talvez me falte confiança em mim, talvez seja medo de me ferir mais uma vez, não sei bem como expressar tal vulnerabilidade, ou simplesmente eu não aprendi a me desarmar.

  fui criada de uma forma onde as meninas podiam falar, mas nem tanto. as meninas podiam mostrar seus desejos, mas nem tanto. as moças de boa família não falavam palavrões e nem se davam ao desfrute. as mulheres casadas tinham que se calar para os maridos e não podiam contrariá-los...

  ou seja, seja morna, não muito fria nem muito quente, seja a medida do que lhe permitirem ser, dê mais do que recebe e não reclame disso porque foi feita para servir, não para ser escrava, mas para servir. tem que ser boa de cama, mesa e saber recepcionar bem sem se exaltar ou atravessar a masculinidade de seu cônjuge. 

  não servi para ser boa esposa, falava verdades demais, fui esquentada demais, tenho cabelo nas ventas e não me calo se me sinto insultada ou desrespeitada, dou conforme recebo e se não recebo não dou. a conta comigo tem que fechar de alguma forma e é assim que dito a minha própria cartilha. a solidão me caiu bem por anos. não esperava nada mais dos homens e nem da humanidade, mas fui surpreendida. e que bom que a vida nos presenteia, raramente, mas presenteia.

nota 1

 era para ser algo ligeiro e de pouca profundidade, já havia me conformado com as pequenas notas de cravo da vida, já havia me acostumado com aquele gostinho de quero mais, depois da primeira xícara de chá. talvez pelo doce, a canela.

  pois assim seria, se tudo fosse fútil e controlável. eu fui deixando-me ficar e quando dei por mim estava aqui do outro lado do oceano. e ainda bem que o fiz. e porque não?

  a zona de conforto já havia sido imposta há alguns anos, depois de eu ter tentado me fazer amada e desejada, e cada vez mais deixando de ser quem eu era, e de certa forma, vendo meu ímpeto juvenil se perder nas novas dobras do tempo e de minha pele, cada vez mais cansada, embaixo daqueles sorrisos falsos e superficiais.

  "uma jovem senhora", foi assim que ele me chamou peça primeira vez, me senti uma velha, mas com um sorriso enorme do lado contrário do oceano atlântico, hoje posso dizer: "do lado errado do atlântico". e eu não estava mesmo esperando por nada, por ninguém, porque tudo já estava tão cinza, que até um dia claro de verão, no Brasil, me pareceria um dia chuvoso na Inglaterra.

  essa jovem senhora, coberta por terra e tantas outras falácias de uma cultura que mata as mulheres de várias formas, uma cultura que apaga as mulheres de meia idade, em meu país. essa mesma jovem senhora, despida de qualquer pudor que me impuseram desde muito jovem estava nua, estava despida de qualquer ensinamento antigo, de crenças limitantes, e de tudo que não me servia mais.

  não me via fazia muito tempo, só olhava para aquela casca de mim, para aquilo que me enterrou, para aquela sombra que me tornara com o tempo, com as perdas, com a não compreensão de tudo que me cercava desde então.

  ver o outros, observar os outros e aqueles comportamentos erráticos com relação à vida, com relação às imposições sociais, só me fez entender que o casulo que me protegia de tudo também me impedia de viver a liberdade de ser quem sou.

  a casa, a biblioteca, a coleção de linhas, os gatos, o trabalho, a cena social escassa e a clausura autoimposta já não me serviam mais. o silêncio de todas as palavras trancafiadas em algum recanto dessa alma cansada de gritar, finalmente voltou a ressoar e me impulsiona agora ao exterior. e me deparar com isso é tão libertador quanto assustador. ser e ser quem sou e me deparar com a realidade de que eu nunca mudei e que apenas me silenciei, me fingi de morta para sobreviver.

  e me fingir de morta, até ali, nunca havia sido uma opção e que de alguma forma ela se impôs para o bem ou para o mal. não sei exatamente onde isso tudo me leva, mas o sentimento é do flutuar no vazio, ou melhor dizendo no excesso de possibilidades. e não falo aqui da liberdade burguesa de trocar as cortinas da casa, falo de um processo longo e doloroso de se retirar de um cenário onde não me sentia a protagonista de minha própria existência e me lançar ao desconhecido.

  um desconhecido que me rasga pela incerteza e me atravessa pela didática vida que se impõe, mas não é assim que deveria ser sempre?

sexta-feira, 18 de abril de 2025

Lisboa chora...

 há três dias Lisboa chora

e se derrama sem dramas

sobre as águas do Tejo

e ele a recebe inteiro...


há uma semana não durmo

vivendo o que sonhei por anos

nem o Tejo, nem Lisboa sabem

dos meus segredos...


alheios a mim, ambos seguem

teus cursos em silêncio

sem alardes e sem reclamar


há alguma ternura descontente

às margens daqueles que partem

sem despedidas ou saudades


há quem diga que não voltam

mas mesmo os mortos tendem

a boiar d'outro lado do rio.

nota 8

 sou vizinha da última morada de Camões e não tive coragem de visitá-lo. o senhor que há tantos anos me inspirou às primeiras estrofes e cam...